terça-feira, 9 de agosto de 2016

A história de Arno Berwanger, o lendário "Rei do Galaxie

O Ford Galaxie foi e, continua sendo, um “grande carro grande”. Com isso, todos os seus admiradores concordam, sejam eles jovens ou veteranos. Mas certamente ninguém teve tanta convivência e intimidade com o modelo quanto o saudoso empresário Arno Henrique Berwanger, de Novo Hamburgo (RS), que na década de 1980 chegou a ficar conhecido como o “Rei do Galaxie”.


Sempre falante e bem-humorado, ele era a maior lenda viva da história do Galaxie no Brasil. Mas esse título informal e a fama não vieram ao acaso. Arno foi, na condição de titular de um distribuidor Ford, o maior vendedor de Galaxie do País, uma atividade que, como ninguém, sabia exercer com arte, talento e um entusiasmo contagiante.





Nascido em 14 de junho de 1927, o gaúcho Arno Henrique Berwanger foi caminhoneiro no final dos anos 1940 e início da década seguinte, transportando para São Paulo e Rio de Janeiro os calçados produzidos na região do Vale dos Sinos. Em dezembro de 1952, abandonou a estrada e montou, em sociedade com o irmão, uma oficina mecânica.


No decorrer dos anos, associando as atividades da oficina à grande vocação de vendedor, Arno começou a vender, em Novo Hamburgo e arredores, veículos da Willys-Overland do Brasil, cedidos por revendedores de outras cidades. Até que surgiu a oportunidade de tornar-se sócio da Novocar, então revendedor Willys em Novo Hamburgo. Vendeu para o irmão a sua participação na oficina, e com a disposição de sempre, assumiu a Novocar. Aos poucos, foi adquirindo as cotas dos outros sócios, até ficar integralmente com a concessionária. Foram anos difíceis, recordava ele.


VENDENDO MUITO


Em abril de 1967, a Ford lançou no mercado brasileiro o Galaxie 500, um modelo grande e luxuoso, com motor V-8, muito conforto e maciez ao rodar. Naquele mesmo ano, a Willys foi incorporada pela Ford, e muitos dos revendedores tornaram-se então distribuidores Ford, inclusive a Novocar. Isso representou um “prato cheio” para o empolgado comerciante Arno Berwanger, que já havia se encantado com o Galaxie desde a época do lançamento.





E foi assim, unindo criação de oportunidade de bons negócios com amor ao produto, que iniciou-se a fama que Berwanger, com muito orgulho, levaria até o final da vida. Sofisticado e caro, o Ford Galaxie era considerado, por muitos distribuidores da marca, um tanto “difícil de vender”. Mas, para Arno, isso era um prazer. Costumava deixar carros novos com os clientes, para que os experimentassem com a família durante o final de semana.


Na segunda-feira, duplamente empolgados _ com o veículo e com a maneira como Arno sabia conduzir uma boa conversa _, os clientes voltavam à loja para fechar o negócio e ficar com o carro. Situada a 40 km de Porto Alegre, Novo Hamburgo é uma cidade rica e muito conhecida pelas indústrias de calçados. Ganhou a fama de “Cidade dos Mil Galaxie”.


A Novocar era a única revenda Ford no Sul do Brasil a manter um estoque permanente de 10 a 15 unidades, entre as versões Galaxie 500, LTD e Landau. Em determinadas épocas, a empresa de Arno chegou a responder por 8% das vendas do modelo no País. Por diversas vezes, foi necessário pedir mais veículos à fábrica, tamanha era a demanda.




Muitos desses automóveis foram vendidos também em Santa Catarina, na região do Vale do Itajaí, principalmente em Blumenau. A exemplo do que ocorria no mercado gaúcho, Berwanger soube aproveitar as oportunidades que as revendas locais ignoravam. Dessa fase, recordava com nostalgia muitos lances pitorescos, que sempre terminavam com mais um carro vendido.


Num deles, ocorrido em fins de 1979, ele oferecia um veículo novo ao proprietário de um modelo 1974 e, durante a conversa, descobriu que a mulher do cliente era prima de sua esposa. Na ocasião, acabou vendendo dois Landaus. Nessa mesma época, a Ford estava por lançar o Landau modelo 1980, e cada distribuidor receberia inicialmente apenas uma unidade. Antecipadamente, Arno vendeu 18 carros (incluindo os dois citados) e, ao solicitá-los à Ford, perguntaram-lhe se não estaria doente.


Berwanger criou também um inédito consórcio de Landau, vendendo todas as cotas em poucos dias. No início de 1983, um comunicado da fábrica deixou Arno profundamente triste. Com vendas totais em declínio, devido ao alto preço em meio à crise, o Landau deixaria de ser fabricado, o que veio a ocorrer em janeiro daquele ano. “Acabaram com o meu brinquedinho”, lamentava ele. Mas Arno não desanimou. Continuou a vender modelos usados, prestando também impecável assistência técnica aos carros em circulação.


SURGE O MUSEU


A sempre assumida paixão pelo luxuoso carrão da Ford fez com que Arno Berwanger criasse, em 1988, o Museu do Galaxie. Dessa vez, Arno saiu a campo com outra missão: comprar Galaxies para formar o acervo. Alguns foram adquiridos ainda impecáveis, em zelosa conservação. Outros receberam reparos na pintura e eventualmente tiveram determinados componentes substituídos, para que ficassem rigorosamente perfeitos e com todos os detalhes originais.


O museu foi instalado num amplo e bem iluminado salão anexo à Novocar e, algum tempo depois, já abrigava 20 unidades. Do primeiro Galaxie 500, de 1967, eram oito carros, em cada uma das cores externas disponíveis na época. Apoiado na parede, ao fundo do Museu, um chassi do modelo 1967, com rodas e a mecânica completa, tudo funcionando. Logo à entrada do salão, o Landau 1982 que foi utilizado pela Presidência da República, tendo servido a Figueiredo, Sarney e Collor.


Eram mostradas também algumas das mais representativas versões do Galaxie, exibindo aos visitantes as mudanças estéticas e mecânicas ocorridas ao longo dos 16 anos em que o modelo esteve em produção. Entre elas, LTD 1970, Galaxie 500 1970, LTD Landau 1972, LTD Landau 1973, Galaxie 500 1974, Landau 1977, LTD 1979 e o Landau 1979 da série especial limitada a 300 unidades, lançada naquele ano para comemorar os 60 anos da Ford no Brasil.








Na exclusiva tonalidade vermelho-scala metálico, esse carro foi vendido pela própria Novocar quando novo, e recomprado ainda do primeiro proprietário, com apenas 27 mil quilômetros rodados. Mais inédito ainda, porém, era o Landau modelo 1983 mantido zero quilômetro. Na cor azul-clássico metálico, o carro ficava sempre coberto por uma capa de tecido, protegido da poeira. Foi removida a cera protetora da pintura (aplicada na fábrica para o transporte), as calotas continuavam guardadas no porta-malas, e o interior do Landau permanecia exalando cheiro de carro novo, com os plásticos originais ainda envolvendo o estofamento e para-sóis. No hodômetro, a comprovação: apenas 10 km rodados.


Outra curiosidade: as placas dos carros. Por fazer aniversário no dia 14 de junho, todos os automóveis de Arno _ do museu (exceto o Landau zero, sem placas), e também de seu uso pessoal _ recebiam placas com a numeração 0014 ou 1414.


DESPEDIDA PRECOCE


Arno exibia o museu com satisfação e orgulho, e gostava de contar suas façanhas dos tempos áureos do Galaxie. Regularmente, ainda comprava e revendia Landaus usados. Nunca conformou-se totalmente com o fim da produção do carro, e seus olhos azuis brilhavam quando falava da grande paixão pelo automóvel. Sempre divertido e animado, continuava a fazer longas viagens, de preferência ao volante de seu outro Landau 1983, “de uso”.


Mas, em 1995, aos 68 anos, descobriu um câncer. Um rigoroso tratamento contornou o problema, que parecia ter sido eliminado. Infelizmente, um ano depois, a doença voltaria a se manifestar, exigindo novo tratamento de saúde. Debilitado, ele acabou vencido pelo câncer. Arno Berwanger faleceu na manhã de 12 de fevereiro de 1997, uma quarta-feira de cinzas, aos 69 anos de idade.


A Novocar e o Museu do Galaxie também não existem mais. Os carros que formavam essa bela coleção, porém, continuam sendo conservados individualmente por diversos apaixonados pela linha Galaxie, em vários lugares do País. E muitos outros, que algum dia foram vendidos por meio do trabalho prazeroso de Arno Berwanger, igualmente permanecem preservados com abnegada dedicação, alguns ainda ostentando a identificação “Novocar”, seja no adesivo do vidro traseiro ou na plaqueta metálica estampada na traseira do veículo.


Nesse cenário, repleto de muitas e boas lembranças de todos aqueles que tiveram a honrosa oportunidade de conhecer o maior vendedor de Galaxie de todos os tempos, com certeza será mantida, até mesmo para as futuras gerações, a memória de uma lenda que estará eternamente ligada à própria história desse fantástico automóvel: a lenda do Rei do Galaxie.

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